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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Por que deixei de ser palmeirense...


Acabo de assistir ao programa Cartão Verde da Cultura, e acabo de me demitir da condição de Palmeirense e com uma sensação de grito de gol entalada na garganta venho a essa terapia coletiva que é esse blog do NCA dizer ao mundo que desisti do alve verde. Se é que alguém pode se orgulhar de ser "traidor" fica aqui meu brado: Salve o Corinthians!!!
Me explico sem pudores, hoje o cartão verde escancarou o sentimento que eu guardei vendo o jogo da final do brasileiro. Aquela imagem dos torcedores e dos jogadores corinthianos fazendo um minuto de silêncio de mão erguida em homenagem ao grande jogador Sócrates enquanto os palmeirenses em campo demonstrando sua pequinesa de espirito apenas baixaram a cabeça. Sei lá o que levou os mesmos a fazerem tal gesto de indiferença, mas nada me parece plausível quando busco uma resposta. Porém senti vergonha de ver meu ex-time não tendo coragem de homenagear tal figura humana valiosa a história do nosso país. Quando foi citado no programa o fato ocorrido me veio ao pensamento a reflexão: Por que escolhemos os times que escolhemos na infância? Muitas respostas cabem como motivo à grande parte da população, a influência do pai, um jogo histórico transmitido pela TV, a admiração por um jogador específico, mas no meu caso foi diferente, por pressão dos amigos da rua me vi tendo de ter um time, coisa que não estava nos meus planos aos 5 anos de idade, mas que tive de responder por inclusão social. Fui pra casa e no varal secava a camisa de um time, que logo me encantou por ser de uma cor que eu muito gostava, verde. Aí assim sem muitos critérios perguntei a minha mãe: Que time é esse? Ela respondeu que era o Palmeiras, time que ela e seu namorado, dono da camisa torciam. Por uma acaso descobri depois que meu pai também era palmeirense o que reforçou um pouco a escolha.
Sempre gostei muito de futebol, apesar de na adolescência ter escondido isso atrás de um discursinho pseudo-politizado de não torcer para nenhum time já que futebol era alienação, mas as escondidas acompanhava cada passo dos campeonatos que a Tv transmitia. No fundo mantinha aquela magia do futebol com a mulecada na rua de terra em frente a minha casa, onde tudo que precisávamos era uma velha bola de baskete murcha, um par de chinelos pra fazer trave e uns trocados pra pagar a tubaína dos campeões. Era fantástico como mesmo sem os tampões dos dedos do pé todos ficavam extremamente felizes em dar o melhor de si nas piores condições, o que me faz lembrar também o quanto eu cabulava aula pra jogar futebol de latinha nos corredores da escola, coisas que fazem do futebol algo muito além dos paradigmas políticos. Coisas que me fazem pensar se os panfletários do futebol politizado escolheram seus times por que seus jogadores eram integrantes de alguma facção revolucionária. Muito improvavel, apesar de o discursso recorrente ser, "eu torço pra tal time por que é uma time de origem operária, por que representa o povo", balela, quase ninguém torce pro time que torce por que tinha um histórico de luta. O futebol é quem te escolhe nessa nação festeira. E o time não pode ser maior que os homens que o fazem ou que torcem pra eles. Me lembro das memoráveis partidas que contemplei no Rio Bonito, bairro onde passei parte de minha infância e adolescência, onde o "Estrela do Castelinho" batia vários adversários de outros bairros nas várzeas da represa do Guarapiranga. Nada ganhavam além de uma simplória salva de palmas e alguns gritos de saudação, mas jogavam como se disputassem uma copa do mundo e como se a própria vida estive em jogo, e hoje numa análise mais aprofundada arrisco dizer que estava mesmo, pois os homens que ali se apresentavam descarregavam naquele campinho de terra batida, as desesperanças da rotina sangrada que cada um levava, trabalho, sonhos, dores, independente da camisa que defendiam, estavam irmanados na condição, involuntariamente.
São essas coisas que o Doutor Sócrates nos deixa como legado nesse mundo de partidas mal repartidas, a pergunta estridente do por que jogar futebol, já que ele mesmo ainda que formado em medicina, abandonou a carreira para fazer da bola seu caminho. Mesmo sabendo que a vida é muito mais, mesmo reconhecendo os problemas sociais, mesmo sabendo que a intenção dos patrocinadores é apenas comprar cada centímetro do uniforme do jogador, ele sabia e nós sabemos, o homem pode sempre ir mais além. E Sócrates como seu ancestral de mesmo nome fez do futebol uma filosofia, uma arte à favor do povo, e isso sem ser panfletário, sem muito discurso, com toques rápidos de calcanhar como era sua especialidade. Fez de sua prática um exemplo ao mostrar as injustiças pelas quais os jogadores eram submetidos e fez realidade a democracia corinthiana, a despeito da democracia brasileira que engatinhava sob os escombros da ditadura. Tudo como quem dizia: "o campo não é um mundo à parte da vida real, mas uma extensão dele, com seus prazeres e desprazeres".
Logo, como não reconhecer o valor de tal pessoa? Como não invejar a nação corinthiana por esse membro ilustre de sua patota?
Tenho de confessar, apesar das brincadeiras, sempre torci pro corinthians ganhar, quando não estava jogando contra o palmeiras, pois o clima na quebrada mudava, a alegria a energia era diferente. Tenho até amigo punk, corinthiano de coração, as vezes ele num sabia nem com quem o time ia jogar, mas simplesmente idolatrava o clube, coisa que só o bando de loco pode explicar, e o que me encanta é essa dignidade marcada pelo suor da gente comum, as vezes exagerada, mas assim... Sem julgamentos, apenas o que é...
Gente que sabe ao menos homenagear seus vivos e mortos com o respeito devido e por isso, meus amigos palmeirenses que me desculpem, mas hoje eu decidi assumir que tenho uma quedinha pelo timão, e a decisão foi sem pressão, por escolha, não espero que entendem, virei a casaca em honra ao grande Sócrates e seus dicípulos!

Daniel FagundeS.

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